O que você vê ao escrever o seu nome?

Sim, você mesmo que está passando os olhos por cada uma das palavras aqui escritas e mentalmente conectando seus fonemas e sons. Se a situação fosse um pouco diferente e você estivesse realizando um exame neurológico enquanto lê, muito provável que as zonas cerebrais conectadas a memória e comunicação no seu cérebro se acenderiam. 

Se eu pedisse para você escrever o seu nome, outras partes se acenderiam. Eu imagino que seja um tanto quanto banal para você — assim como sempre foi para mim — o fato de ser capacitado a escrever o seu próprio nome. De tão acostumados a ter um nome, se reconhecer nele e construir uma história associada a ele nunca pensamos: O meu nome sou eu. 

O nome é como as pessoas da sua convivência vão te reconhecer, te chamar, te convidar. É como você vai assinar aquele contrato, ou escolher uma foto bacana para completar a sua identidade nas redes sociais. O nome pode ter até mudado ao decorrer da sua história, entretanto isso mostra ainda mais a importância de ter uma junção de letras para ler e chamar de sua. 

Existem milhões de indivíduos no Globo Terrestre que não conseguem se encontrar em uma história por trás do seu nome por um motivo: Eles não sabem como escrevê-lo. Segundo o site Our World in Data, 14,7% da população mundial é analfabeta (Dados de 2014). Sendo brasileira, não me surpreende que há pessoas no mundo sem a capacidade de ler ou escrever. Porém, não surpreender é diferente de não se indignar. Foi quando eu fiz meu Voluntário Global na Tailândia que tive a dimensão de quão é importante ter uma história por trás do seu nome ao escrevê-lo e lê-lo. 

Era meu primeiro dia sendo voluntária no Shelter for Child and Family Protection, Chon Buri, Tailândia. Esse abrigo de proteção a criança e a família era localizado no meio do mais absoluto nada, somente havia uma rodovia bastante caótica ao lado e, bom, era isso mesmo.

Não era uma tarefa difícil. A missão era praticar atividades com as crianças no tempo entre 8am e 5pm. Todos os dias. Por 6 semanas. Com crianças que foram abusadas, agredidas, traficadas. Crianças vítimas de um sistema torpe e que estavam naquele lugar a contra-gosto, e que ainda assim fariam o que fosse proposto como atividade, afinal, a cultura da Tailândia diz muito sobre hierarquia… Certo, talvez fosse um pouco — ou muito —desafiador. 

No primeiro dia eu decidi que para conseguir relembrar os nomes de cada uma das 9 crianças naquela sala teria de criar um sistema simples e eficaz. Também intergeracional, afinal, o nível de aprendizado de uma criança de 4 anos é bastante diferente de outra de 15. Assim sendo, cada criança recebeu um papel e por meio de mímicas pedi para escrever os seus nomes. Agora eu lhes pergunto: vocês já viram um alfabeto tailandês? 

Das 9 crianças, 2 escreveram seus nomes em nosso alfabeto ocidental. 6 usaram do alfabeto tailandês para expressar a sua significação e havia uma que desenhou um pequeno boneco feito de linhas. 

Quando a indaguei “por que” na mais pura comunicação gestual — ombros para cima e sobrancelhas levantadas em sinal de dúvida, ela me responde: 

“Nid-No-Thai. Nid-Cambodia”, que traduzindo seria “Nid-não-Thai. Nid-Camboja”.

Foi quando compreendi que Nid, 14 anos, havia sido vítima de tráfico humano. Que estava lá enquanto medidas estavam sendo asseguradas para que ela não tivesse o mesmo destino de sua mãe: Trabalhar na Soy Cowboy, a rua em Bangkok famosa por boates de prostituição. A Tailândia ocupa o Ranking #1 de Produção de Pornografia Infantil. O Brasil é o segundo. 

Foi naquele instante que montei as peças de um quebra-cabeças que de tão espalhado parecia estar em uma mesa de sala-de-jantar de Família Real: Quem sou eu e o que estou fazendo aqui? Naquele momento decidi: Nid vai aprender que ela sabe aprender. 

Nos debruçamos em duas folhas, uma era um comparativo dos alfabetos: O ocidental e o thai. A outra, destinada a ser o primeiro lugar que Nid veria o seu nome – uma espécie de crachá. Depois de algumas comparações sonoras por parte dos seres muito inteligentes que estavam presentes, descobrimos que o nome de Nid era…

Nid.

Parece pífio? Pois Nid não se demorou a pegar uma caneta e escrever seu nome em qualquer superfície passível de receber a sua marca. As suas três letras que formaram um nome. Um nome exclusivo dela, com a sua história. 
Os dias que vieram após esse foram tomados de uma auto-confiança digna de admiração. Ela era a primeira a entrar na sala, ficar até o final e fazer tudo o que era lhe pedido. Ela descobriu o que é se ver como alguém pensante e não como mais um número na estatística. 

Nid me mostrou o poder da auto-confiança e do sempre acreditar em aprender.
Como “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E, por fim, nós que temos o priviégio de ter aprendido a escrever e ler nosso nome, temos a obrigação moral de prover ambientes onde outros possam o fazer também.

Afinal, qual é a história que você deseja ver quando lerem o seu nome?

Quer viver uma história marcante como a da Tashi? Inscreva-se para realizar seu intercâmbio voluntário em: bit.ly/meuintercambiovolutario

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