Quanto mais divulgar que está ruim, melhor

Ao longo dos meses, o blog da AIESEC buscou colaboradores que pudessem contribuir com nosso conteúdo de alguma forma. O primeiro a postar foi André Fran, do Não Conta Lá em Casa, do Multishow. Ele falou sobre a possibilidade de mudar suas opiniões a respeito de lugares e costumes ao conhece-los e em como podemos agir para mudar o que achamos que seja necessário no mundo. Você pode ler o texto do Fran aqui.

Em seguida, Luah Galvão e Danilo España contaram para o nosso blog um pouco das experiências incríveis que eles tiveram ao viajar por dois anos e conhecerem 28 países em um projeto, o Walk and Talk, que procurava descobrir o que motiva as pessoas. O texto imperdível está disponível neste link.

Agora, vamos postar o terceiro texto desses colaboradores. O autor da vez é Claudio Sassaki, fundador da Geekie. O relato dele tem muito a ver com o impacto que o blog da AIESEC vem falando, o de fazer algo para mudar o mundo com as próprias mãos. Relatamos isso nos textos do Marcelo de Medeiros e do Gustavo Fuga.

Sassaki é formado em Arquitetura e Urbanismo na USP e tem mestrado em Educação na Universidade de Stanford, nos EUA. Trabalhou por cinco anos em instituições financeiras em Nova York e voltou ao Brasil como vice-presidente do banco de investimentos Credit Suisse. Em seguida, assumiu o mesmo cargo no Goldman Sachs. Além disso, ele também foi diretor financeiro da Petra Energia.

Em 2011, Sassaki jogou tudo para o alto. Ele resolveu correr atrás do sonho de mudar o Brasil através da educação. Com um sócio, fundou a Geekie, empresa responsável por uma plataforma online baseada no conceito de aprendizado adaptativo. Hoje, quatro anos depois, a Geekie já ajudou a melhorar o desempenho de cerca de 4 milhões de alunos das redes pública e particular.

Com a autoridade de quem entrou no meio para torna-lo melhor – impactá-lo – Sassaki faz uma avaliação da Educação em nosso país e da importância de plataformas de desenvolvimento, como a AIESEC. Boa leitura!

 

A culpa pela situação da educação no Brasil não é dos políticos, ainda que a maioria deles não se interesse pelo tema (aliás, sabemos muito bem pelo que nossos políticos se interessam).  Não, a culpa desta vez não é deles. É nossa, da sociedade. Por vários motivos, pais e mães estão equivocadamente satisfeitos com a qualidade de escolas públicas e privadas. Assim a educação não vai mudar. Ou melhor, vai, porque quem conhece o valor da educação quer que ela mude. Mas para que isso aconteça precisamos conhecer o tamanho do desafio.

A pesquisa mais abrangente sobre o que as famílias pensam das escolas públicas foi feita há dez anos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e ouviu 10 mil pessoas.  Em média, pais e mães deram nota 8,6 para a qualidade do ensino recebido pelos filhos. A explicação provável para isso são as baixas expectativas: 58% dos entrevistados não tinham completado o ensino fundamental, mesmo índice dos que pertenciam às classes D e E. Para 57%, a escola do filho era melhor que a deles.

Duas frases de pais ou responsáveis, ambas colhidas em Brasília, resumem o espírito da pesquisa. A primeira: “Só não estuda quem não quer”. E a segunda: “Não precisa enfrentar fila nenhuma pra matricular as crianças nas escolas. A gente pode fazer tudo por telefone, é uma beleza”.

Precisamos divulgar para essas pessoas, em alto e bom som, que não, a escola dos filhos delas não tem qualidade. Uma tentativa polêmica nesse sentido foi feita pelo economista Gustavo Ioschpe, que sugeriu a instalação de placas nas portas de escolas com o resultado delas no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Considerada radical demais, a proposta não foi pra frente.

Os dados a serem trabalhados estão todos aí, são públicos, resultado de avaliações externas. São dados contundentes, como os do Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2012. Em Ciências, os estudantes brasileiros ficaram em 59º lugar em um ranking de 65 países; em Matemática, ficaram na 58ª posição e em Leitura, na 55ª. Pisa que, por sinal, avalia tanto alunos de escolas públicas quanto particulares.

Na batalha para mudar os rumos da educação, o Brasil tem hoje algumas armas importantes. A principal é a atual geração de jovens. Ao contrário dos pais, orientados para a carreira, de preferência em uma grande empresa, eles querem fazer a diferença na sociedade, atacando as questões mais importantes. Prova disso é o entusiasmo crescente da nova geração pelo empreendedorismo social. Não importa o tamanho do projeto, importa a relevância da causa.

Outro ativo do movimento pela educação é a pegada digital da sociedade brasileira, que está entre as mais conectadas do mundo às redes sociais. Hoje o espaço para demonstrações de força não precisa ser a rua, mas o ambiente virtual. Mobilizações no Facebook podem ser mais eficazes que passeatas, basta um mínimo de coordenação. Falando nisso, já passou da hora de todos termos uma lista com os e-mails de congressistas, para pressioná-los a votar projetos importantes para a educação.

Aliás, há um efeito colateral positivo em massificar o debate sobre a agenda da educação. Ela é capaz de unir uma sociedade que está dividida. Paira acima das distinções ideológicas e partidárias. E tem a capacidade de empolgar as pessoas pela relevância do tema e sua importância para o presente e o futuro do País. Em qualquer pesquisa de opinião sobre em que é necessário investir hoje no Brasil, Educação está entre as áreas mais citadas, com Saúde e, mais atrás, Segurança Pública.

Você pode achar que uma campanha centrada na denúncia da má qualidade do ensino tem um viés excessivamente negativo. E é verdade. A denúncia precisa vir acompanhada de uma bandeira que desperte a esperança nas pessoas. Para nós, da Geekie, essa bandeira é a do poder de aprender, de conscientizar os brasileiros de que todo mundo tem a capacidade de aprender, basta dispor dos instrumentos adequados para isso.

A sociedade precisa entender que temos hoje uma oportunidade histórica de reverter séculos de atraso na educação. O binômio tecnologia e educação zerou o jogo em nível mundial, porque todos ainda estão tentando se adaptar à nova realidade. Se o Brasil for agressivo na incorporação de novas ferramentas, podemos dar o salto de qualidade que alguns julgam impossível. Tecnologia de qualidade existe – e ela é barata.

O círculo virtuoso começa com a sociedade se dando conta do tamanho do nosso atraso na educação e cobrando os governantes para que façam os investimentos necessários. Em um segundo momento, as famílias vão se concentrar em apoiar os estudantes em casa, estimulando o estudo e o uso das novas ferramentas e modelos, como o ensino híbrido e a aprendizagem personalizada. A médio prazo, o valor da educação vai virar um ativo da sociedade. Aí o futuro será dos engenheiros e médicos, não dos jogadores de futebol.

Claudio Sassaki

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