Um homem precisa viajar

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink

Não tinha como iniciar esse texto, antes de citar o pensamento, na minha opinião fantástico, do velejador Amyr Klink.

Recentemente fomos convidados para gravar um documentário chamado Mochileiros S/A e a equipe nos pediu que lêssemos um trecho dessa citação pra fechar o vídeo. Foi naquele momento, relendo o que o velejador um dia sabiamente escreveu, que compreendi o real sentido de cada uma daquelas palavras. Meu pensamento foi além, percebi que todos que já se aventuraram em uma jornada para outros horizontes, de alguma forma, voltaram ao ponto de partida com aprendizados muito parecidos. Vivenciar uma experiência que nos leve para fora do nosso habitat e nos faça sair da costumeira zona de conforto, é algo que muda qualquer cabeça.

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu…”. É assim que Amyr começa seu texto.

Sim!! Viajar com nossos próprios pés e ver o mundo com nossos próprios olhos é a única maneira de experimentar as diversas culturas através de nossos 5 sentidos. Tocar o solo que fica do outro lado do planeta, ouvir línguas e dialetos que jamais imaginamos existir, saborear temperos que não fazem parte do nosso paladar, ver construções com requinte milenar, conhecer novas vestimentas, arquiteturas, geografias, sentir o efeito da história na vida de certos povos. Isso é realmente mágico e representa um grande salto. Sem perceber, enquanto viajamos para “fora”, estamos dando passos largos ao encontro de nós mesmos. No fundo no fundo, o mundo nos mostra quem realmente somos. Sempre falamos nas nossas palestras que a cada passo que demos para fora, três foram dados para dentro. As mudanças foram tão grandes ao longo dos mais de 2 anos de viagem que quando regressamos ao nosso lar, mal reconhecemos os viajantes que partiram.

Escrever nossas experiências, tirar nossas próprias fotos – aquelas que retratam nosso olhar, sair da TV e viver na prática o que os programas mostram, isso é experimentar de verdade! Me lembro da sensação ao tirar minha primeira fotografia da Volta ao Mundo, mesmo sem nenhuma precisão profissional, ela passou a valer mais do que todas as fotos vistas antes nos livros. Aquela foto era meu olhar, eu estava finalmente inserida em cenários que antes só existiam em sonhos. Foi demais. Não acreditava estar vivendo aquilo.

Acho que isso é comum a todos os que viajam: sua fotografia passa a ter mais valor do que todas as já tiradas e sua experiência será aquela que nunca foi contada – aquela que abre a cabeça, muda paradigmas, faz o horizonte se alargar.

Assim como as fotos, as experiências nunca serão iguais. Essa é a beleza de cada jornada, parece que ela vem como “encomenda” e ensina o que cada um precisa para amadurecer.

 “… para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.”

Uma coisa que aprendemos, tanto na Volta ao Mundo quanto no Caminho de Santiago foi o sentimento de gratidão. Ele é algo avassalador para todos que vivenciam grandes jornadas. A gratidão pela natureza, pelo tempo que ensina, pelas pessoas maravilhosas que cruzam nosso caminho. São tantos os que nos ajudam quando estamos em terras distantes, tantas vezes somos tirados da solidão por sorrisos, abraços, conversas, convites. Sempre ganhamos muito mais do que damos, crescemos muito mais do que imaginamos. Até as experiências ruins entram na lista de aprendizados, afinal acreditamos que obstáculos sempre agregam valor a qualquer tipo de conquista.

Conversando com outros viajantes, sejam intercambistas, mochileiros, aventureiros, expatriados ou tudo isso junto, percebemos que a experiência em terras distantes sempre traz esse sentimento de gratidão. É comum a gente voltar pra casa deixando várias das reclamações corriqueiras de lado. O mimimi dá espaço para outros pensamentos e a cabeça dá espaço pra coisas muito mais interessantes e relevantes. Parece que agradecer passa a valer muito mais do que reclamar e passamos a dar muito mais valor às nossas raízes, família, amigos, nosso lar…

“… um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

É, gente, o mundo é uma grande escola. Talvez a maior de todas! Sabe, todos os lugares pelos quais criamos alguma expectativa, logo que chegamos, ela foi quebrada. Nada é na realidade como achávamos que seria. Você pode pensar o que quiser sobre Barcelona, Milão, Singapura ou Japão, pois só vai saber ao certo quando pisar lá, sentir e ver com seus próprios olhos. Ainda assim serão os seus olhos, o que não quer dizer que reflitam o que os lugares realmente são. Parece difícil, mas não é… cada um de nós carrega cultura, hábitos, educação, sabedoria, atitudes;  um conjunto de coisas muito particulares que nos definem. É esse conjunto de coisas que vai fazer com que tenhamos nossas experiências. Por isso que é tão difícil responder, por exemplo, qual é o lugar que mais gostamos na Volta ao Mundo. O meu lugar certamente não será o seu, que não será o lugar queridinho da Joana, do Antônio ou do João. Cada um irá escolher o lugar de preferência de acordo com suas experiências individuais.

É por isso que quanto mais nos aventuramos e conhecemos, mais estudantes do mundo nos tornamos. Não queremos ser doutores de nada. Eu não quero te dizer qual é o melhor lugar ou vivência pra você. Ela será sua e só sua. A gente perde mesmo a arrogância quando abraçamos outras Terras. Percebemos logo nos primeiros passos o quanto nada sabemos e o quanto é justamente essa a maravilha que nos faz eternamente sedentos em seguir e continuar. Aprendendo cada vez mais…

Portanto meus amigos, sem demagogia alguma, VIAJEM! Ultrapassem seus limites, enfrentem com coragem territórios distantes, vejam com seus próprios olhos o que esse lindo e enorme mundo tem a oferecer… e na volta teremos muito o que compartilhar!! Boas descobertas pra todos.

Por: Luah Galvão | Fotos: Danilo España

Luah Galvão é atriz e apresentadora e Danilo España, fotógrafo. Juntos idealizaram e empreenderam o Projeto Walk and Talk  uma volta ao mundo em busca do que move, inspira e motiva pessoas das mais variadas raças, credos, culturas e cores. Viajaram por mais de 2 anos, visitando 28 países nos 5 continentes. Recentemente decidiram estudar superação e para isso percorreram mais de 800 quilômetros à pé em 52 dias no Caminho de Santiago de Compostela, Espanha, coletando histórias. Compartilham essas ricas experiências em seu site, nos portais das revistas Exame e Harvard Business Review Brasil, além das mídias sociais do Projeto Walk and Talk e revistas como a Rota Leste. Ministram palestras e workshops pelo Brasil com diferentes temas sempre levando em conta a busca pelo propósito, desenvolvimento de talentos, qual legado deixaremos para o mundo, motivação, superação, entre outros temas relevantes.

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